Comer é Cultura

COMER É CULTURA

Comensalidade ficcional



Recentemente estava lendo o primeiro livro do Guia do Mochileiro das Galáxiasde Douglas Adams. Justamente na parte em que os dois protagonistas “pegam carona” numa nave espacial vogon, eu me peguei pensando sobre esse assunto culinário. Não por acaso, ou que isso tenha vindo do absoluto nada (às vezes vem), mas por causa de um comentário específico do personagem Ford Prefect quando ele diz:

"- Eu trouxe uns amendoins.
Arthur Dent mexeu-se e gemeu de novo, produzindo sons incoerentes.
- Tome, coma um pouco - insistiu Ford sacudindo o pacote - se você nunca passou antes por um raio de transferência de matéria, deve ter perdido sal e proteína. A cerveja que você tomou deve ter protegido um pouco seu organismo."

Ford atribui o sucesso e o bem-estar de ambos ao álcool que tomaram de antemão. Isso me levou a refletir que o tema da comida em algumas obras é visto como um portal ou um rito de passagem para um novo mundo, ou como um elemento crucial para a sobrevivência e integração do protagonista, sendo recorrente e muito aplicado em obras de fantasia e ficção científica.

Vem comigo que eu tenho um ponto.

Comensalidade é a prática social de compartilhar refeições, comer em conjunto e conviver ao redor da mesma mesa. Entretanto, vai muito além de apenas suprir uma necessidade biológica, o feito refere-se ao fortalecimento de vínculos afetivos,  a transmissão de costumes e a valorização cultural do ato de se alimentar.

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kami-kakushi/Spirit Away):

As duas faces da moeda alimentícia. Ao chegarem no mundo espiritual, os pais de Chihiro comem, ou melhor, se empanturram com um abundante banquete; comida essa que estava destinada aos espíritos e deuses daquele lugar. Como punição, suas identidades são “absorvidas” por aquele mundo fantástico. 
Um destino similar aguarda Chihiro, porém pela razão contrária. A garota não quer comer, pois teme o mesmo destino dos pais, mas por sorte, Haku, lhe oferece algumas frutinhas e o conselho de que se não comer, aí sim, ela irá desaparecer. A comida testa, pune e integra os personagens.

John Carter - Entre Dois Mundos (John Carter):

Baseado no livro Uma Princesa de Marte, do autor Edgar Rice Burroughs. John Carter é um dos celebres heróis da era pulp. Teve uma adaptação para o cinema em 2012, que não foi muito bem de bilheteria, mas que pode me ajudar a ilustrar meu argumento. 
No filme, quando o protagonista John Carter é capturado no planeta Marte (Barsoom), seus captores lhe dão uma bebida (leite espacial?! - aí dento) que lhe concede a capacidade de entender e falar o idioma dos Tharks, funcionando como um atalho para a comunicação e o pertencimento. Uma decisão alimentícia completamente questionável e que não me agradou, mas consegui suspender a descrença com a graça de um bailarino sobre brasas. 
Tal mudança é um contraponto inusitado se comparado ao livro, onde o protagonista aprende o idioma e a cultura através da convivência, na mesma pegada de Dança Com Lobos, Pocahontas, O Último Samurai, Avatar, etc. 
Mas isso é outro assunto.

Alice no País das Maravilhas (Alice In Wonderlands):

Alice no País das Maravilhas, do autor Lewis Carroll, é um clássico da literatura mundial. Tanto no livro quanto nos filmes, as comidas e bebidas, como a poção "Beba-me" ou o bolinho "Me Coma" (aí dento), alteram o tamanho e a relação da protagonista com o ambiente, sendo essenciais para o desenrolar da história. Quando Alice bebe o líquido do frasco No Mundo das Maravilhas, comer não é só uma mimética da realidade, aqui, comer é um ato de poder narrativo.

A História Sem Fim (The Neverending Story):

Um clássico da literatura e, principalmente, do cinema oitentista, temos A História Sem Fim, de Michael Ende. No livro, o herói Atreiú precisa encontrar a cura para a Imperatriz Criança e salvar o mundo de Fantasia. Embora a comida não seja o foco principal, em dado momento da narrativa ficamos sabendo que o consumo de água do Lago da Amargura é o que faz as pessoas perderem suas memórias e identidades naquele lugar. Novamente a figura da ingestão, do consumo de algo que pertence àquele mundo tem potencial nocivo aos personagens. Não comer (ou beber, no caso) o que corrompe é crucial para a integridade.

As Crônicas de Nárnia - O Leão, A Feiticeira & O Guarda-roupas:

Esse foi o primeiro livro que C.S. Lewis escreveu sobre a fabulosa terra de Aslan. Um fato curioso é que na ordem cronológica essa é a segunda história, embora a mais popular. 
As Cônicas de Nárnia - o Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupas vamos acompanhar a jornada dos irmãos Pevensie numa Londres em plena Segunda Guerra Mundial
Logo que atravessa o limiar do Mundo Comum para o Mundo Fantástico, Lúcia, a irmã mais nova, é convidada pelo sátiro, sr. Tumnus, a tomar um chá da tarde com direito a bolo e torradas. Edmundo é tentado com um manjar turco pela própria Feiticeira
Ambas as refeições são introduções no novo mundo (Nárnia), mas também são sua, quase, perdição.

Comer é Cultura

Em todas essas histórias, comer, beber ou engolir o que vem do desconhecido é o verdadeiro "aperto de mãos" entre o protagonista e o novo mundo. A comida funciona como uma comunhão: ao digerir o fantástico, o personagem deixa de ser um mero espectador e passa a fazer parte daquela realidade — para o bem ou para o mal. 
Seja através do álcool de uma cerveja ou do perigo sedutor de um manjar turco, a ficção nos mostra que a comensalidade é o rito de passagem definitivo.
No fim das contas, a literatura e o cinema nos ensinam uma regra de ouro para a sobrevivência em qualquer dimensão: cuidado com o menu da casa. Aceitar um lanchinho em um universo paralelo pode te dar superpoderes, a fluência em um idioma alienígena, ou te transformar em um porco gigante. 
Então, se um dia você pegar carona em uma nave vogon ou atravessar um guarda-roupa, lembre-se de checar os ingredientes antes de dar a primeira mordida.
Afinal, nós somos o que comemos, mas, no multiverso da imaginação, nós nos tornamos o lugar onde decidimos jantar.

E aí, qual a comida ou bebida ficcional você mais teve vontade de provar??

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